Sino

Claudio & Manoel do Sino

Carrilhão eletrônico

Histórias sobre sinos

Os sinos de nossas igrejas sempre despertam curiosidade de muitas pessoas, mesmo aquelas que não professam a nossa fé.

Enquanto as torres das igrejas em geral se sobrelevam ao casario e às demais construções circundantes identificam a presença de um templo por sua mensagem visual, os sinos as complementam, com sua mensagem sonora.

Esses nossos mensageiros apareceram na mais remota antiguidade, na China, e foram usados nos mosteiros budistas, como também foram encontrados no antigo Egito.

Suas formas e pesos variaram muito durante os séculos, mas são considerados instrumentos musicais aptos para alertar e convidar os fiéis para as celebrações comunitárias e mesmo para as orações diárias.

Eles são um sinal (daí a origem do nome em latim "signum") e são feitos de bronze-uma liga de 4 partes de cobre e uma de estanho, adicionando também uma dosagem de ouro ou de prata e outros componentes, para otimizar sua sonoridade, segundo fórmulas secretas guardadas sob sete chaves e passadas de geração a geração pelas famílias construtoras, em geral italianas ,alemãs e portuguesas.

Parece que os primeiros a utiliza-los foram os mosteiros beneditinos para convocar os monges às orações das horas, na Itália, nas Gálias e Inglaterra, ou mesmo um santo, S.Paolino de Nola que anteriormente já os tinha usado em sua catedral, em meados do século quinto, ou seja em 431. No século VIII, o Papa Estevão II fez construir uma torre na antiga Basílica de S.Pedro, nela colocando três sinos. No século IX apareceram em todas as catedrais e nas igrejas paroquiais.

Os sinos como "res sacrae", instrumentos diretamente ligados ao culto costumam ser "batizados", como se diz, ou melhor recebem uma benção própria, reservada ao Bispo.

Costumam homenagear determinados santos cujos nomes são gravados am alto relevo em sua forma cônica.

Vejamos algumas inscrições existentes em velhos e venerados sinos, testemunhas da história, de acontecimentos felizes, de desgraças e calamidades de suas comunidades ou aldeias.

Ouçamos em latim, na língua que convém aos sinos evidentemente:

"Vox meã, vox vitae, voco vos ad sacra, venite."
"A minha é a voz da vida que vos convida ao culto divino", ou, outra mais completa:
"Laudo Deum verum" - Louvo o Deus verdadeiro
"Plebem voco " - Convido o povo
"Congrego clerum" - Reśno o clero
"Defunctos ploro" - Choro os mortos
"Nimbum fugo" - Afugento os temporais
"Festa decoro" - Solenizo as festas

Há outra inscrição muito bela:

"Funera plango" - Choro os funerais
"Fulmina franfo" - Elimino os raios
"Sabbata pango" - Alegro os feriados
"Excito lentos" - Acordo os preguiçosos
"Dissipo ventos" - Afasto os vendavais
"Paco cruentos" - Pacifico os violentos

Os sinos gozavam de grande prestígio em outras épocas, eram queridos do povo e exerciam até mesmo funções sociais importantíssimas para as suas comunidades. De acordo com o seu toque, conhecido de antemão pelo povo, os sinos alertavam para os incêndios, a proximidade dos vendavais, ou então a morte e o sepultamento de pessoa da comunidade, (comum toque lento e espaçoso), ou mesmo, o nascimento de uma criança, diferenciando o dobre se essa fosse do sexo masculino ou feminino.

Os sinos eram portanto uma forma perfeita de comunicação em tempos passados e o relógio comunitário. Durante o dia, às 6 hs, ao meio dia e às 18 hs, recordavam ao povo a hora da oração do "angelus", ou das ave-marias.

Ecoando pelos vales, pelas planícies e colinas traziam sempre mensagem de fé e de serenidade. Durante o tempo do advento e particularmente na quaresma os sinos emudeciam, e o povo sentia a sua falta.

No Natal, à Missa da meia-noite e na solene Vigília da Páscoa, porém, eles se libertavam do longo silêncio penitencial, atingiam o máximo de esplendor e de brilho com o bimbalhar festivo que inundava de alegria os corações de todos.

Hoje parece que os sinos não têm mais voz e vez. Nas grandes cidades as torres que são seu habitat natural vivem asfixiadas entre gigantescos arranha-céus e a sua voz suplantada pela parafernalia dos motores e buzinas.

Entretanto, eles continuam vivos no imaginário coletivo. A maioria das pessoas não consegue identificar uma igreja sem a torre e sua presença ilustrativa é constante nos cartões de Páscoa e Natal. O s psicólogos infantis afirmam que as crianças costumam identificar os sinos com a própria igreja. Em países onde a religião era tolerada ou perseguida, sempre que possível, talvez em sinal de protesto e de auto-afirmação, os campanários se elevavam aos céus e havia até uma sã rivalidade entre as comunidades para ver quem construísse a torre mais alta e mais artística de toda a região.

No Rio - cidade quadrisecular - os sinos belos e históricos estão também presentes no seu cenário. Só para citar alguns exemplos: os do Mosteiro de S.Bento (vindos da Alemanha) - Sinos da Matriz da Glória no Largo do Machado - de N.S.da Paz em Ipanema, N.S. da Conceição de Botafogo, do Outeiro da Glória, os de S. Sebastião de Bento Ribeiro, os sinos da Igreja de S.José em escala musical cujo sineiro, o Sr.José Maria Melo, é capaz de tocar com eles melodias religiosas.

Na igreja de S.Francisco de Paula no centro, em sua torre esquerda, a torre do relógio, encontra-se um grande sino do tempo do império - o famoso Aragão - o qual todas as noites às 22 hs baixava o toque de recolher aos habitantes do Rio antigo.

A tecnologia moderna subiu até as torres e aboliu todo esforço humano na arte de tocar sinos. Os sinos hoje são eletrônicos e ainda mais, programados. Mesmo com as igrejas fechadas e sem presença humana, eles tocam como se mãos invisíveis de anjos os acionassem docemente, enquanto os homens modernos, sempre estressados, se agitam...

Amemos os nossos sinos. Eles são os amigos que nos convidam a caminhar em nossa fé. Mensageiros celestes que nos convocam à oração, nos alertam para o horário, nos comovem, nos alegram e nos enternecem. O Senhor Jesus afirmou: meus discípulos ouvem a minha voz. Não será também a sua a voz dos sinos?

Dom Augusto Zini Filho Bispo de Limeira SP (crônica 1995).
Descrita por Manoel do sino RJ.

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